segunda-feira, 24 de julho de 2017

Lesli Linka Glatter – “A Proposta” / “The Proposition”


Lesli Linka Glatter – “A Proposta” / “The Proposition”
(EUA – 1998) – (110 min. / Cor)
Kenneth Branagh, Madeleine Stowe, William Hurt, Blythe Danner, Robert Loggia, Neil Patrick Harris.

No início dos anos sessenta, no interior do cinema Americano assistimos ao final da época de ouro do sistema dos Estúdios, fruto em parte desse desastre financeiro chamado “Cleópatra”, mas também da importância que a caixa que mudou o mundo, conhecida como televisão, começou a ter no quotidiano das pessoas. E por estas duas razões o cinema americano, que sempre teve pernas para andar, renovou-se na área da produção e dos cineastas, recorde-se que os grandes cineastas clássicos terminaram as suas carreiras nesta época, surgindo então uma nova vaga de realizadores, oriundos da televisão e, curiosamente, ao longo dos anos vamos encontrar essa onda gigantesca de realizadores, que farão a sua transição do pequeno para o grande écran, uns com enorme sucesso outros nem por isso.


Lesli Linke Glatter é uma realizadora que se iniciou na televisão com enorme sucesso, mantendo-se ainda por lá, demonstrando as suas qualidades e quando olhamos para algumas das séries que tem dirigido ao longo dos anos fica tudo dito. Mas nada melhor do que deixar alguns títulos onde participou: “Amazing Stories”, produzida por Steven Spielberg, “Twin Peaks”, uma das obras-primas de David Lynch (realizou quatro episódios), “Law & Order”, “NYPD Blue”, “Grey’s Anatomy”, “The Closer” e “ER”, só para referirmos alguns dos seus trabalhos. Mas, em meados dos anos noventa (1995/1998), Lesli Linke Glatter tentou dar o salto para o grande écran, primeiro com o chamado filme de mulheres “Now and Then” / “Amigas Para Sempre”, com um elenco predominantemente feminino e em 1998 com este “The Proposition” / “A Proposta”, contando no elenco com um trio de actores que nunca nos desiludiu: Kenneth Branagh, Madeleine Stowe e William Hurt.


Kenneth Branagh é um actor/cineasta que se tornou conhecido de todos através da sua interpretação/realização de “Henry V” / “Henrique V”, que deixou o mundo cinéfilo perfeitamente deslumbrado, mas a sua carreira entre o velho e o novo mundo acabaria por ser feita de sobressaltos, assim como a sua obra de cineasta. Onde se destacam os filmes “Peter’s Friend” / “Os Maigos de Peter” uma versão “british” dos “Amigos de Alex”, “Dead Again” / “Viver de Novo”, uma tentativa falhada de navegar no universo hitchcockiano ou as suas adaptações shakespearianas, por sinal bem sucedidas de “Muito Barulho por Nada” / “Much Ado About Nothing” e “Hamlet”, onde nos era revelado o talento de Kate Winslet.


Madeleine Stowe tem sido, ao longo de décadas, sempre uma excelente actriz (de uma beleza profunda), embora esse grande sucesso tão desejado por ela nunca tenha sido conquistado, infelizmente, aliás no ano em que participou em “A Proposta” ela iria ser uma das personagens desse espantoso filme “em mosaicos”, intitulado “Playing by Heart” / “Entre Estranhos e Amantes”, ao lado de Sean Connery e Gena Rowlands, entre outros. Dedica-se nestes últimos anos ao trabalho para a televisão, tele-filmes e séries.

William Hurt é um daqueles actores de que todos conhecem a sua arte, cuja apresentação não é necessária, embora nunca seja demais referir que ele continua a trabalhar no cinema a todo o vapor, participando numa média de três filmes por ano.
Ora são estes três actores que irão dar rosto aos protagonistas de “A Proposta”, uma obra dramática passada em 1935 na cidade de Boston.


Estamos em plena era Rosevelt e Arthur Barret (William Hurt), um distinto advogado saído de Harvard, é um dos seus proeminentes conselheiros do Presidente, casado com a escritora Eleanor Barret (Madeleine Stowe) que produz obras de sucesso, onde o desejo pela emancipação feminina vive em cada página. Mas como nunca há “bela sem senão”, o casal não tem filhos, porque Arthur é estéril, no entanto a necessidade de um herdeiro é um assunto de primordial importância para esta poderosa família de Boston. Por essa razão ambos decidem contratar os serviços de um jovem licenciado em direito, Roger Martin (Neil Patrick Harris), para conceber o tão desejado fruto.


Olhados como exemplo de sucesso pela igreja local, os Barret entram assim no território do pecado, porém nessa noite programada pelo relógio biológico de Eleanor nada acontece, sendo necessário contratar de novo os “serviços” do jovem Roger Martin, que entretanto se vai apaixonar por ela e, ao saber que Eleanor foi bem sucedida na gravidez, parte para a chantagem, ameaçando reclamar o filho como seu.
Durante este período irá chegar à igreja de Boston o padre Michael McKinnan (Kenneth Branagh), oriundo de Inglaterra, que tudo fará para evitar os convites dos Barret para jantar na mansão, até chegar esse dia em que saberemos que ele é filho do irmão mais velho de Arthur Barret. E aqui também descobrimos que o seu pai é um aliado industrial do nacional-socialismo que então vigora na Alemanha e que teve em Inglaterra, como se sabe hoje, inúmeros simpatizantes, basta recordarmos o Lord Darlington (James Fox) de “Os Despojos dos Dias” de James Ivory e ficamos perfeitamente situados na realidade histórica.


A alegria da gravidez de Eleanor Barret irá transformar-se em tragédia quando ela aborta e, nesse momento capital do filme, o padre McKinnan põe de lado a amargura familiar que habita na sua alma e oferece o conforto espiritual à esposa do seu tio. Mas para complicar ainda mais este melodrama, o jovem Roger Martin aparece morto, sem identificação e será precisamente Eleanor a revelar a sua identidade, passando a olhar o marido como o assassino do amante contratado. McKinnan acabará por se envolver de tal forma na dor sentida por Eleanor, que acabará por se apaixonar por ela perdidamente, numa relação proibida aos olhos de Deus e que dará os seus frutos.

Leslie Linka Glatter

“A Proposta” surge assim como um filme onde o vigor do melodrama se encontra bem presente, embora o argumento por vezes se encontre com falhas, já que a história nos é narrada em “flashback”, embora a reconstituição da época está perfeita, enquanto a interpretação/direcção de actores surge em muito boa forma, ou eles não se chamassem Kenneth Branagh, Madeleine Stowe e William Hurt. Por outro lado, a realização de Lesli Linka Glatter apresenta-se correcta, embora nunca nasça esse golpe de asa que faça o filme sair da mediania de certa produção norte-americana.
Numa época em que, cada vez mais, os filmes oriundos do continente americano, se apresentam completamente consumidos pelos efeitos especiais, será interessante descobrir esta obra, acima de tudo pelo trabalho dos actores, mas também para reflectir neste modelo de produção.

domingo, 23 de julho de 2017

Danny Boyle – “Trainspotting”


Danny Boyle – “Trainspotting”
(Inglaterra – 1996) – (94 min. / Cor)
Ewan McGregor, Ewen Bremmer, Johnny Lee Miller, Kevin McKidd, Robert Carlyle.

O cineasta Danny Boyle, um nome hoje em dia bem conhecido de todos, após o sucesso de “Quem Quer Ser Milionário?” / “Slumdog Millionaire?”, numa das mais inesquecíveis noites dos Oscars, iniciou o seu trabalho na televisão em 1987, tendo por ali andado até 1994, ano em que assinaria o bem curioso “Pequenos Crimes Entre Amigos” / “Shallow Grave”, para dois anos depois levar ao grande écran a obra de Irvine Welsh, “Trainspotting”, que se iria tornar num verdadeiro fenómeno de bilheteira, onde irão brilhar os actores Ewan McGregor e o fabuloso Robert Carlyle, compondo a inesquecível figura desse psicopata em eterno conflito com o mundo, ou se preferirem com todos aqueles que o rodeiam.


“Trainspotting” situa a sua acção em Edimburgo oferecendo-nos a vida de um grupo de toxicodependentes com uma paixão avassaladora pela heroína, onde se irá destacar Renton (Ewan McGregor) o narrador da história, que iremos acompanhar ao longo do filme, conhecendo as suas pequenas desgraças e alucinações memoráveis, ficando célebre o seu mergulho nessa sanita pouco recomendável, para recuperar a droga perdida, numa sequência, que irá marcar o filme e que não se recomenda a espectadores sensíveis.


Renton (Ewan McGregor), Spud (Ewen Bremen) o traficante Sick Boy (Johnny Lee Miller) e Tommy (Kevin McKidd) formam um quarteto inesquecível, que ultrapassou há muito o abismo, convivendo no seu interior num eterno conflito harmonioso, pontuado de forma perfeita pelo odioso e violento Begbie (Robert Carlyle).
Um dos segredos de “Trainspotting” é o facto de Danny Boyle não se perder em falsos moralismos, optando por nos oferecer a vida perfeitamente surrealista destes toxicodependentes, não os olhando como farrapos humanos, mas sim como personagens em busca da tão desejada trip perfeita.


O sucesso de “Trainspotting”, de Danny Boyle, um dos mais importantes filmes britânicos da década de noventado século xx, ultrapassou as barreiras da ilha de sua Majestade, como todos sabemos, tornando-se num dos filmes mais vistos e comentados de sempre, oferecendo-nos interpretações memoráveis e uma banda sonora que fez furor na época e se tornou inesquecível, ao mesmo tempo que assistíamos ao nascimento de um cineasta.



Nota: Vinte anos depois irá nascer “Trainspotting 2” também realizado por Danny Boyle.

sábado, 22 de julho de 2017

Mark L. Lester - "Comando" / "Commando"


Mark L. Lester – “Comando” / “Commando”
(EUA - 1985) – (90 min. / Cor)
Arnold Schwarzenegger, Rae Dawn Chong, Dan Hendaya, Vernon Welles.

O filme menos conhecido de Arnold Schwarzenegger intitula-se “Comando” e foi realizado por Mark L. Lester. Sendo inevitável comparar este “Comando” com a película “A Fúria do Herói” / “First Blood” de Sylvester Stallone (realizado pelo canadiano Ted Kotcheff) e se “Rambo” deu origem à “Rambomania”, cultivada infelizmente por alguns políticos, este filme em que Arnold Schwarzenegger é protagonista oferece-nos o outro lado das forças especiais de intervenção rápida.


Ele não é um homem como a personagem de “Rambo”, que vive inteiramente ligado ao passado, isolado e perdido entre os seus semelhantes, mas sim um pai, que afastado da sua unidade militar, tal como todos os seus companheiros, vive sossegadamente com a filha, sendo as primeiras sequências o retrato da sua vida familiar e John Matrix (Arnold Schwarzenegger) só irá regressar à actividade de comando devido ao rapto da filha.


Evidentemente a película transporta consigo a acção condutora deste género de filmes, embora não de uma forma gratuita, (como sucede nas películas em que Jean-Claude Van Damme ou Steve Seagal, são protagonistas), já que o humor, uma das habituais marcas de muitos dos filmes interpretados por Arnold Schwarzenegger encontra-se bem presente, dentro desse contexto que iremos descobrir muitos anos depois no filme “Os Mercenários” / “The Expendables”, realizado e protagonizado por Sylvester Stallone, de homenagem aos actores dos filmes de acção e onde o próprio Arnold Schwarzenegger estará também presente.

Mark L. Lester e Arnold Schwarzenegger
durante a rodagem do filme.

O reencontro entre pai e filha e o final de “Comando”, realizado por Mark L. Lester,  não deixaram margem para uma possível continuação, situando-se antes em mais um filme de acção protagonizado por Arnold Schwarzenegger, um actor que ao longo dos anos tem sabido gerir, como poucos, a sua carreira cinematográfica, sobrando-lhe ainda tempo para se dedicar à política, chegando como muitos sabem a Governador da Califórnia, assim como Clint Eastwood, em tempos idos, foi Governador dessa bela cidade chamada Carmel, será que algum deles poderá aspirar à Presidência dos EUA? A resposta é bem simples, porque depois de termos esse actor chamado Ronald Reagan na Presidência da América, que se esquecia das frases no Teatro, como confessou um dia Ida Lupino, tudo é possível na América.

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Steven Soderbergh – “O Falcão Inglês” / “The Limey”


Steven Soderbergh – “O Falcão Inglês” / “The Limey”
(EUA – 1999) – (89 min. / Cor)
Terence Stamp, Lesley Ann Warren, Peter Fonda, Luis Guzman, Melissa George, Barry Newman.



A história de Steven Soderbergh é conhecida de todos: entrou com o pé direito e venceu o Festival de Cannes com “Sexo, Mentiras e Vídeo” / “Sex Lies and Videotape”, uma película independente feita com meios bastante reduzidos, mas onde era possível detectar o génio que se encontrava ali. E de imediato todas as portas se abriram e ele atirou-se a um projecto fabuloso, criando essa obra extraordinária chamada “Kafka”. Mas os resultados de bilheteira foram os piores e as portas começaram a fechar-se lentamente, embora ele continuasse a trabalhar, introduzindo de forma sabedora as marcas da sua autoria, até que chega esse primeiro ano do novo milénio (2000) e a sua vida muda decididamente de figura, porque nesse ano realiza dois filmes que são estrondosos sucessos de bilheteira e da crítica: “Erin Brockovich” e “Traffic”.


Mas no ano anterior, em 1999, Steve Soderbergh realizou uma das suas melhores películas de sempre, intitulada “O Falcão Inglês” / “The Limey”, que foi recuperada e exibida após os estrondosos sucessos de 2000 e foi assim que descobrimos este filme então em exibição numa das salas do Cinema Mundial. E a primeira constatação é a descoberta da arte do “flash-back” e do emprego do tempo no cinema, que aqui surge como verdadeiro protagonista.
 “O Falcão Inglês” conta-nos a história de um gangster britânico que sai da prisão e decide partir para Los Angeles para saber quem matou a sua filha Jenny, para assim fazer justiça com as suas próprias mãos. Tudo o que sabe cinge-se a uns recortes de jornais que um antigo guarda-costas, de seu nome Eduardo Roel (Luís Guzman), amigo de Jenny lhe enviou, conseguindo depois, através de uma professora da filha chamada Elaine (Leslie Ann Warren), descobrir o território pantanoso habitado por Jennifer Wilson, sendo assim conduzido até Terence Valentine (Peter Fonda), o produtor discográfico de “sucesso”, com negócios muito pouco recomendáveis.


Durante a viagem de avião iremos conhecer as memórias de Terence Wilson (Terence Stamp), o gangster inglês de sotaque “cockney”, que possuía na filha o ser que mais amava no mundo. Ela que já em pequena não gostava das actividades do pai, ameaçando chamar a polícia, irá fazer o mesmo quando descobre que o seu namorado Terry Valentine (Peter Fonda) se encontra envolvido em negócios de lavagem de dinheiro da droga.
Wilson (Terence Stamp) é um homem duro, sem contemplações para ninguém, não hesitando em puxar do gatilho, como veremos no seu primeiro encontro com os traficantes de droga. Embora por outro lado seja um homem um pouco fora da realidade do mundo, devido ao tempo que passou na cadeia, aliás bem visível quando pensa que os homens que se encontram à porta da Mansão de Valentine, onde ele dá uma festa, são gangsters.


Já Terry Valentine (Peter Fonda) surge aqui a respirar um pouco a alma do protagonista de “Easy Rider”, como o produtor bem sucedido, tipicamente Californiano, com casa nas colinas de Los Angeles (de uma arquitectura espantosa) e outra luxuosa casa em Big Sur, possui bons carros e motas, ao mesmo tempo que gosta de contar histórias do seu passado à jovem com quem vive, ou seja a rapariga que substituiu Jenny no seu “coração”.
Curiosamente, um dos roubos que Wilson praticou foi o das receitas de um concerto dos Pink Floyd, enquanto Valentine foi um dos responsáveis por uma série de concertos do grupo nos States. Mas enquanto um irá praticar a justiça que acha justa, pelas suas próprias mãos, o outro possui em Avery (Barry Newman) o chefe de segurança, que o protege e de quem é sócio no esquema de lavagem de dinheiro, uma espécie de anjo protector contra todas as adversidades.


Ao longo da película, sempre com “flashbacks” a invadirem o filme e uma montagem descontínua e brilhante, iremos saber que Jenny foi morta por Valentine, quando decidiu denunciar à polícia o que se passava, pagando com a própria vida a sua eterna honestidade. E Wilson irá ajustar as contas com ele, depois de tirar do caminho todos os homens que o protegem na casa de Big Sur, agindo sempre de forma destemida, como se estivesse imune às balas que no final, já na praia, Valentine irá disparar sobre ele.


Steven Soderbergh filma todas as sequências do confronto entre Wilson e os seguranças de Valentine de uma forma brilhante, sem um plano a mais ou a menos, ao mesmo tempo que instala um clima perfeito de suspense, com uma eficácia extraordinária. Por outro lado decidiu inserir ao longo do filme imagens de uma película realizada em 1967 por Ken Loach, intitulada “Poor Cow”, onde Terence Stamp é protagonista, surgindo estas como o retrato perfeito de um passado, que Wilson ainda recorda, mas que certamente irá ser perdido na memória com a passagem dos anos. Aliás “O Falcão Inglês” termina precisamente com imagens retiradas desse filme, com Terence Stamp a tocar guitarra.
“The Limey” surge assim na carreira de Steven Soderbergh como um dos seus filmes mais brilhantes em que ele, mais uma vez, trata o cinema “por tu”, demonstrando ser um perfeito conhecedor dessa Arte intitulada de Sétima. 

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Otto Preminger – “Vidas Inquietas” / “Angel Face”


Otto Preminger – “Vidas Inquietas” / “Angel Face”
(EUA – 1952) – (90 min. - P/B)
Robert Mitchum, Jean Simmons, Herbert Marshall, Mona Freeman, Leon Arnes, Barbara O’Neil.

Otto Preminger, esse cineasta austríaco, que fez a maior parte da sua carreira cinematográfica na América, sempre gostou de não ficar preso dos produtores dos Grandes Estúdios e daí o vermos quase sempre a produzir os seus próprios filmes, única maneira de na época conseguir controlar todas as fases da produção, impedindo assim a intromissão de terceiros. E “Vidas Inquietas” / “Angel Face” não foge a essa regra sagrada do cineasta.


No início da película, em plena noite, uma ambulância parte do hospital, rumo às célebres colinas que rodeiam Los Angeles, essas mesmas colinas onde todos sabemos habitarem essas famílias detentoras de dinheiro e poder. E quando entramos na residência de Charles Tremayne (Herbert Marshall), percebemos de imediato que algo se passa naquela casa: a sua esposa, verdadeira detentora do capital, inalara inadvertidamente gás no seu quarto, situação, essa, que quase lhe provocara a morte. E só depois de toda sequência terminar iremos encontrar Diana Tremayne (Jean Simmons) a filha do escritor, que se encontra na sala a tocar piano, tratando-se evidentemente desse “Angel Face”, que dá título ao filme.


Na época alguns apontaram como um erro de casting a presença de Jean Simmons no elenco, já que ela não possuía visualmente esses atributos característicos da mulher fatal, mas todos estavam enganados! Porque na verdade Otto Preminger pretendia uma actriz, que revelasse no rosto, esse célebre olhar de anjo, tão desejado pelo realizador.
Ao fazer-se encontrada nessa mesma noite, no bar frequentado pelo condutor da ambulância, Diana (Jean Simmons) pretende conquistar o homem, que momentos antes a esbofeteara, quando ela tivera um ataque de histerismo, tendo ela replicado da mesma maneira. E rapidamente, o par se irá envolver, conseguindo Diana que Frank Jessup (Robert Mitchum) deixe a sua namorada e troque o seu emprego pelo de motorista da família.


Na verdade Diana possui uma profunda ligação ao pai, que concorda sempre com as suas opções, um escritor bloqueado na sua arte, a viver à custa da milionária com quem se casara em segundas núpcias, ao mesmo tempo que ela odeia a madrasta, detentora do capital que sustenta aquela casa.
Rapidamente Frank Jessup torna-se numa verdadeira marioneta nas mãos de Diana e quando ela descobre como será fácil matar a madrasta, coloca em acção o seu plano, que se irá revelar trágico, porque ao contrário do que ela supunha, o pai irá acompanhar a mulher, nesse arranque fatal em marcha atrás, rumo ao abismo.
De imediato tanto ela como Frank são acusados de assassínio premeditado, iniciando Diana, herdeira de uma fortuna enorme, um complexo jogo, assumindo as culpas perante o advogado de defesa, ao mesmo tempo que clama a inocência do homem que ama.

Otto Preminger

Tendo ao seu dispor um advogado famoso, Diana e Frank serão absolvidos, por um júri, que clama a sua inocência, perante os factos apresentados no tribunal, bastante influenciado por os dois acusados se terem casado na prisão, apesar das reticências de Frank, que percebe o jogo da jovem e, quando finalmente abandonam a sala do tribunal, regressando a casa, a Angel Face irá perceber, que o ser amado, nunca irá ficar ao seu lado e nesse preciso momento, decide agir, numa sequência memorável, bem demonstrativa do saber do cineasta.


Otto Preminger na época afirmou que “o argumento era um factor essencial nos seus filmes”, aliás bem demonstrativo nesta película, mas as interpretações também são memoráveis, conseguindo como o cineasta referiu numa entrevista “ajudar os intérpretes a descobrir formas de expressão sempre novas e a sair das tipificações convencionais, o que em Hollywood não é coisa fácil”, aliás bem demonstrou nesta película memorável, alcançando com eficácia os objectivos pretendidos ao realizar este filme.


“Angel Face” oferece-nos uma Jean Simmons de cabelo comprido, ainda muito nova, a fugir das interpretações, a que irá habituar as plateias de todo mundo, ao mesmo tempo, que esses secundários, em que Hollywood foi pródiga na época de ouro do cinema norte-americano, nos oferecem sempre o seu enorme talento, por muito breves que sejam as suas aparições e linhas de diálogo. Já Robert Mitchum encontra-se como peixe na água, como sempre nos habituou ao longo da sua memorável carreira.

“Vidas Inquietas” surge assim na filmografia de Otto Preminger, como uma das suas obras maiores, fruto da genialidade de um Mestre, que soube mergulhar no “film noir” oferecendo-nos sempre a sua essência.

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Luis Mandoki – “As Palavras Que Nunca Te Direi” / “Message in a Bottle”


Luis Mandoki – “As Palavras Que Nunca Te Direi” / “Message in a Bottle”
(EUA – 1999) – (132 min. / Cor)
Kevin Costner, Robin Wright Penn, Paul Newman, John Savage.

“Message in a Bottle” antes de ser um filme foi o maior “best-seller” de Nicholas Sparks, autor norte-americano, senhor de uma escrita cativante, que soma sucesso atrás de sucesso com os seus livros, possuindo no seu continente e em todo o mundo uma imensa legião de leitoras. Falamos no feminino porque as suas obras profundamente românticas destinam-se primordialmente ao público feminino e não nos esqueçamos que cerca de 70% dos leitores são do sexo feminino. E começamos por falar em Nicholas Sparks, ao abordarmos este filme de Luís Mandoki, porque o argumentista introduziu na história uma figura preponderante em todo o desenrolar da acção do filme chamado Dodge Black ou seja Paul Newman, o verdadeiro “fiel da balança” da película, assim como introduziu alterações no final, transformando um simples naufrágio num acto de heroísmo.


Estarei a contar a história? Enfim, já todos a sabemos e eu até li o livro depois de ter visto o filme e confesso que gostei da escrita de Nicholas Sparks. Mas falemos de Luís Mandoki e de “Message in a Bottle”. O cineasta nasceu no México em 1954 e tem trabalhado tanto no seu país como nos Estados Unidos, começou a dar nas vistas na área do melodrama quando assinou “White Palace” / “Loucos de Paixão” com Susan Sarandon e James Spader nos protagonistas, estávamos aqui perante uma história de amor entre um yuppie e uma empregada de um “Diner”, onde o cheiro dos hambúrgueres se fazia sentir na rua. Perante o sucesso do filme onde Susan Saradon está fabulosa, um novo melodrama é-lhe oferecido pelos Estúdios, trata-se de “Quando Um Homem Ama Uma Mulher” / “When a Man Loves a Woman” com Andy Garcia e Meg Ryan num papel dramático pela primeira vez e aqui entramos num dos mundos mais complexos do amor, no interior do alcoolismo no feminino, perante o olhar perturbado das crianças e o amor de um marido que a deseja a todo o custo, revelando-se um filme brilhante, mas com um sucesso relativo a nível de bilheteiras.


Desta forma, com provas dadas na arte do romantismo no cinema, foi com naturalidade que vimos “Message in a Bottle” ser entregue a Luís Mandoki, no entanto surgiu um problema já que o actor principal era Kevin Costner, que tentava relançar a sua carreira, estava então na sua fase mais baixa e foi muito difícil encontrar a sua “partenaire”, todos os nomes badalados na época, pertencentes ao “top ten” feminino recusaram contracenar com Kevin Costner, achando-o um verdadeiro veneno de bilheteira, Robin Wright Penn foi então a opção e poderemos dizer que após tantas dificuldades, o papel ficou muito bem entregue.
Chegamos assim a Cape Code lugar onde se encontra de férias Theresa Osborne (Robin Wright Penn) uma jornalista do “Chicago Tribune”. Ao passear na praia irá encontrar uma garrafa na areia, mas esta garrafa é diferente tem uma carta lá dentro, uma maravilhosa carta de amor assinada por G. Quem seria o enigmático G? Disposta a encontrá-lo Theresa, que até é divorciada, conta o sucedido nas férias a um dos jornalistas, mostrando a carta e ele decide publicá-la na sua coluna. Enquanto Theresa trabalha na pesquisa do “Chicago Tribune” uma multidão de leitores decide colaborar com ela, sendo a redacção do jornal invadida por centenas de cartas.


Os dados da história estão lançados e Theresa irá fazer-se encontrada com Garrett (Kevin Costner) mas nunca lhe falará da carta, segredo bem guardado e de imediato os sentimentos de ambos começam a movimentar-se, embora os dele estejam em luta permanente com o passado e com a família da esposa morta. Repare-se em toda a sequência em que o cunhado e os sogros tentam recuperar os quadros da filha, a forma violenta como Garrett se opõe a eles, ou a luta no bar aquando do primeiro encontro entre Theresa e Garrett.
Durante essa semana Theresa conhece o mundo de Garrett e mais tarde será Garrett a conhecer o universo de Theresa em Chicago. Entretanto surge essa figura inesquecível da história, Dodge Black (Paul Newman) a quem o filho conta as cervejas existentes no frigorífico, estamos perante um daqueles velhos teimosos, mas donos da sabedoria de um mundo, será através dele que Theresa irá conhecer a verdade dos factos e será através dele que iremos encontrar os melhores momentos da película, a sua presença é uma mais valia de “As Palavras Que Nunca Te Direi”.
Como todos sabemos Garrett é um homem em luta com as memórias de um passado perdido para sempre e ao descobrir como Theresa o conheceu fica perfeitamente louco pela forma como foi construída a mentira. Aqui temos nos momentos de maior tensão um Kevin Costner no seu melhor, com uma Robin Wright a oferecer-lhe uma boa réplica e nesta altura do filme já nem pensamos nos nomes que recusaram ser Theresa Osborne.


Todas as histórias de amor nem sempre tem um “happy-end”, como sucedia na época do cinema clássico, mas sempre imaginámos que um dia Rick e Ilsa, o par romântico de “Casablanca”, depois da guerra se voltariam a encontrar, porque viveram a mais perfeita história de amor, Em “Message in a Bottle” não há lugar para um final feliz, mas o argumentista Gerald Di Pego decidiu escrever um final digno de Garrett Black.
“As Palavras Que Nunca Te Direi” relançaram a carreira de Kevin Costner e contribuíram imenso no aumento das vendas do livro de Nicholas Sparks, para além de ser um dos filmes mais vezes exibido nas televisões, portanto conseguiu atingir os seus objectivos. Quanto à matéria que nos interessa, a qualidade da película, somos obrigados a reconhecer o bom trabalho desenvolvido por Luís Mandoki na direcção de actores, mantendo o controlo da embarcação nas restantes áreas. Talvez por isso mesmo, “Message in a Bottle” continua a ser uma película que se vê com agrado, mesmo quando já sabemos a história, gostamos de olhar, mais uma vez todas aquelas personagens e seguir a sua história. Esse é o grande segredo do filme, cativar uma audiência e neste caso sabemos que Garrett e Theresa “regressaram a casa”, chegando a um “porto seguro”, no território do melodrama. Mas nunca é demais referir que a personagem interpretada por Paul Newman, sempre que surge no écran, respira cinema por todos os fotogramas e sentimos o pulsar da Sétima Arte!

terça-feira, 18 de julho de 2017

Clint Eastwood – “Destinos nas Trevas” / “Play Misty For Me”


Clint Eastwood – “Destinos nas Trevas” / “Play Misty For Me”
(EUA – 1971) – (102 min. / Cor)
Clint Eastwood, Jessica Walter, Donna Mills, John Larch.


Nos dias de hoje muitos são aqueles que referem Clint Eastwood como o último cineasta clássico do cinema norte-americano e ao olhar a sua já extensa obra como cineasta, somos obrigados a concordar com o título, mais que merecido. Três obras da sua filmografia, por vezes esquecidas, são disso exemplo, falamos de “Bird”, “Caçador Branco, Coração Negro” e “As Pontes de Madison County”. Mas se partirmos para inícios dos anos setenta ao encontro do intérprete Clint Eastwood, ninguém poderia prever que um grande cineasta iria nascer, apadrinhado pelo bom amigo Don Siegel.


Estávamos no ano de 1971 e Clint Eastwood decidiu passar para detrás das câmaras e realizar a sua primeira película “Play Misty For Me” / “Destino nas Trevas”, cuja acção se desenrola na sua cidade, Carmel onde seria Governador durante uns anos, oferecendo-nos uma história de amor, que se irá revelar uma verdadeira atracção fatal.
Aliás o argumentista do filme de Andrian Lyne, “Fatal Attraction”, viu de certeza a película de Clint Eastwood, tendo em conta tantos traços idênticos ao longo das duas obras.
Mas regressando ao filme há célebre frase/pedido telefónico de Evelyn (Jessica Walter) a Dave (Clint Eastwood) no seu programa de rádio, em Carmel, "Play Misty For Me" e assim o locutor responde positivamente ao pedido da ouvinte. Depois lentamente Evelyn irá cultivar o seu amor com Dave, através de uma fragilidade aparente, que a pouco e pouco se transforma em violência.


De um pequeno “flirt” transformado em simples “affair” nasce a destruição e a vingança. Evelyn após o fim do amor passageiro instala-se na casa da namorada de sempre de Dave Garland, usando outra identidade, dando assim início à sua chantagem e manipulação do locutor de rádio, perante a inocente Tobie (Donna Mils), imagem perfeita de uma geração. Por falarmos em geração será sempre de salientar a longa sequência do Festival de Jazz de Monterey introduzida por Clint Eastwood na película, já fruto do seu amor por este género musical, servindo ao mesmo tempo como a bonança que antecede a tempestade, como veremos no final do filme.


“Play Misty For Me” não é um filme datado, embora todos os tiques dos anos setenta, do século xx, estejam lá. E dizemos isto porque o cineasta Clint Eastwood nasceu com este filme. Ele oferece-nos o primeiro capítulo da obra de um grande autor de cinema e não podemos nunca olhar “Destinos nas Trevas” como uma obra-menor, porque se ele é o primeiro filme de um cineasta, que iria evoluir ao longo do tempo surpreendendo tudo e todos, nele encontramos todos os elementos característicos do cinema de Clint Eastwood. Descobrir “Play Misty For Me” é uma agradável surpresa, ao mesmo tempo que encontramos a ponte que ligou o intérprete dos filmes de Don Siegel ao cineasta Clint Eastwood.